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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

aceito «José & Pilar» na saúde e na doença

Basicamente, é o mais humano: a morte e a relação.
Apenas um retrato, claro está. De 200 horas de fita, sobraram duas. Mas tudo o que aparece neste filme faz um sentido tremendo.
E eu, o que ando para aqui a fazer?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Bonnie and Clyde - Arthur Penn

Some day they will go down together,
And they will bury them side by side,
To a few it means grief,
To the law it's relief,
But it's death to Bonnie and Clyde




Bonnie and Clyde é acção no seu estado mais puro: quer acção signifique tiros, perseguições policiais, assaltos a bancos e sangue, muito sangue, quer signifique uma loira a apaixonar-se por um bandido de olhos claros, armada e de charuto a pousar para uma Kodak ou um casal perfeito com problemas na cama.

( a Arthur Penn)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Filme do Desassossego - João Botelho

«Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses são musicais. No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação.»
Bernardo Soares


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lola - Brillante Mendoza

(o seu neto foi assassinado pelo neto doutra mas o que dói mais é ver que o chapéu de chuva daquela mulher velha não a protege da água toda que cai). Lola é um mergulho numa noite de inverno sem frio nenhum. Nada é cru como são estas frases. Um belíssimo filme, com uma respiração octogenária, cada cena a seu tempo apesar do ritmo nunca abrandar. A câmara persegue incansavelmente as personagens que se deslocam por uma Manila cinzenta. Aquilo que poderia tornar-se numa desgraça inultrapassável é, ali, o isco que se tem para dar sentido à vida. A televisão ligada atrás de um ombro musculado (crédito ou débito?) podia até ser vista como um sinal de normalidade, ou símbolo do trabalho. A outra velha também anda à chuva e são incontáveis os pormenores brillantes de Mendoza. As avós, iguais entre si. E os americanos que se entusiasmam num comboio rural a filmar o miúdo que nem vestido está, iguais a quem?



terça-feira, 21 de setembro de 2010

Plein Sud - Sébastien Lifshitz

O olhar de Sam - Yannick Renier - sempre fixo no ponto de fuga. O de Mathieu sempre mediado pela câmara. Léa sempre excitada, a mudar de alvo a cada cinco segundos, presa à recusa de uma gravidez ou à procura da saída do labirinto. Plein Sud é um filme de dramas que tentam esbater-se na procurar de um endless summer que teima em não começar. Sam vive atormentado. Léa tenta dominar o indomável. Mathieu balança no meio dos dois. Mais tarde aparece Jérémie com uma fantástica cabeleira encaracolada. A resposta? Que resposta? Hoje há uma festa na praia e tudo fica bem. Amanhã, talvez regressem os meus fantasmas. E, no último mergulho, a paz de aceitar que o Verão sem fim não vai mesmo começar, Tudo Bem, continuemos a viagem.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

L.A. Zombie: The movie that would not die - Bruce LaBruce

Se os Lordi podem ser vencedores do festival da canção porque motivo não nos podemos rir com L.A. Zombie?
A cabeça do monstro verde interpretado por François Sagat emerge das águas do Pacífico. A pele verde, a moleirinha platinada, um sorriso aterrador. No entanto, mal sustem os pés na areia da Costa Leste o plano enche-se com as suas partes baixas e percebe-se que afinal aquele monstro também é homem. Solta-se a primeira gargalhada.
Prevê-se uma série de ataques homicidas, os humanos transformados em mortos-vivos, o mundo inteiro a resvalar para o lado do mal por via de um contágio sem limites. Mas não! Afinal este Zombie até é bonzinho e utiliza o seu pénis curvo para trazer um último momento de vida aos cadáveres que se vão cruzando no seu caminho. Outra gargalhada.
Depois disto apenas um remake exaustivo da ideia inicial intervalado por momentos de descompressão muito bem conseguidos como aquele em que o zombie Sagat entra num restaurante e grunhe por um café ao empregado asiático.
A crítica à América é crua e directa, no entanto, peca por ser fácil. A partir do momento em que LaBruce cumpre o acto corajoso de filmar a primeira cena, todas as outras tornam-se baratas pelo excesso de gozo e de mau gosto.
Experimentalismo que cria repulsa mas não choca. Uma perda de tempo para cumprir um capricho pop. Apenas um cocktail de pornografia-thriller-série-B-homossexual, apenas.





Depois de a Medeia ter feito uma retrospectiva do trabalho do realizador por volta do seu 20º aniversário, e de Otto; or, Up with Dead People ter passado numa edição anterior do Queer Lisboa, esta foi a aparição mais mediática do cinema de Bruce LaBruce no nosso país, talvez como reflexo do escândalo provocado por L.A. Zombie na mais recente edição do Festival de Locarno.